sábado, 21 de maio de 2016

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Tenho heterofobia mesmo

E eis que de repente, o célebre e digníssimo deputado que coloca carros em nome de Jesus e jura por tudo que é mais sagrado (para ele, claro) que não tem conta na Suíça, Eduardo Cunha, dá o ar da graça mais uma vez com sua capacidade cada vez menor de entender o que não é do seu interesse elitista conservador cristão que preserva famílias e altas somas de dinheiro vindo de corrupção. É que assim, como quem não quer nada, um projeto de autoria dele quer criminalizar a "heterofobia" passou pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ontem. Gente?! Já não bastava aquele papo de que a mulher vítima de estupro vai ter que provar que o sofreu para conseguir o mínimo de atendimento que ela tem direito?

Mas então. Heterofobia? O que seria isso? Em uma pesquisa rápida de dicionário a gente percebe que o sufixo "-fobia" significa duas coisas: 1 - medo exagerado, e 2 - falta de tolerância, aversão. Sobre o segundo item, falta de tolerância e aversão, é sério que faz sentido haver falta de tolerância e aversão a pessoas heterossexuais, numa sociedade onde ninguém morreu ou sofreu agressão, seja da forma que for, simplesmente por ser uma pessoa hétero? Bom, não faz. Então eu tenho certeza que esse projeto para criminalizar a heterofobia na verdade é um projeto para liberar geral duas coisas que fazem muito sentido e todos os dias fazem vítimas no país: a homofobia e a transfobia.

Mas agora vamos falar do primeiro item. O do medo. Se for levá-lo em consideração, sim, eu tenho heterofobia. Sou muito heterofóbico. Pois quando eu vejo um hétero, e no caso homem cisgênero hétero, sim, eu tenho medo. Tenho medo de ser agredido, de ser assassinado, de sofrer agressões verbais simplesmente por eu não ser tão hétero quanto ele. Eu tenho medo de tentar ser "convertido", "curado" ou simplesmente de ser abusado. 

Eu tenho medo de ser subestimado, de ser colocado à margem do convívio dele e das outras pessoas simplesmente porque todo mundo o ensina que pessoas como eu, e como tantas outras que não se enquadram nessa categoria homem-hétero-cis-branco-cristão merecem o nível mais baixo de toda a sociedade, e pessoas como o deputado e sua bancada querem dar segurança para o homem hétero pensar nisso. Eu sou heterofóbico, mas não por ser "intolerante", pois, ainda bem, ainda existem pessoas heterossexuais que não pensam dessa maneira. Tenho heterofobia sim, mas a fobia do medo, que infelizmente, essa mesma sociedade me faz sentir.

Mas a heterofobia segundo a interpretação da galera do Dudu das contas na Suíça, bom, não, isso não existe. Não mesmo, de jeito nenhum. Apenas parem. Beijos de luz. 

Cadê? Não achei. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

domingo, 12 de outubro de 2014

Sobre brigas, xingamentos, tucanos e estrelas vermelhas

Você briga, briga, briga, briga, e briga mais um pouco. Daí você fica cansado e xinga. Depois briga, briga e briga. E xinga. E briga. E xinga. E diz que discorda, mas discorda brigando e xingando. Todos nós (sim, primeira pessoa do plural) estamos chegando a esse ponto. E pelo seguinte motivo:
Nos últimos meses ou você escolhe o tucano, ou escolhe a estrela vermelha, e ai de você se não escolher o mesmo que eu. Vou encher suas redes sociais de argumentos e ofensas à sua escolha, sejam reais ou não. Vou encher seu saco até você implorar para que eu pare, ou me bloqueie - coisa que na década de 2010 já é pior do que qualquer vingança. Vou começar a pegar no seu pé e transformar todo e qualquer assunto em algo que remeta ao fatídico domingo em que vamos apertar alguns botões e um deles é verde. Nossa, como assim você apoia o candidato verde, meu sobrinho? Tem que votar naquele candidato aqui, aquele mesmo que você tanto odeia. Vou te criticar por dizer que apoia uma coisa ou outra mesmo que você não tenha dito isso para atingir quem é contra. E não me venha com argumentos do tipo "mas eu só queria dizer que apoio, sequer motivos para isso eu coloquei. Não quis te provocar" SIM VOCÊ QUIS ME PROVOCAR PORQUE EU APOIO QUEM É DO LADO CONTRÁRIO POR CAUSA DISSO DAQUILO E DESSAS OUTRAS COISINHAS. E isso tem dos dois lados, mas quem se importa? Tretar no Facebook tá na moda, ou algo assim? E aí vai chegar um ponto que eu vou transparecer isso. O que era para ser no mínimo ao contrário, não é: as brigas começam aqui nas internets e terminam na vida real. Estamos no sofá falando de acne e da formiga que não tinha uma das pernas e de repente estamos falando que isso é culpa de uma coisa ou de outra que de repente termina num "você vai votar nessa pessoa mesmo? você não pode, porque..."
Ah, como aprendemos a ser idiotas, ou para falar algo menos forte, um bando de sem noção mesmo, e como aprendemos a soltar tudo o que vem à nossa cabeça sem ao menos pensar em para quem estamos falando isso. Se pensar bem, a gente sempre foi assim, desde sempre, com eleição, sem eleição, com isso ou aquilo. No fundo, a gente se ama, no fundo, a gente tem opiniões diferentes, no fundo, a gente odeia quem tem ódio e preconceito e no fundo quem tem ódio e preconceito não merece ser deixado em paz nas redes sociais, na verdade, merece punição mesmo. Mas que não tem, vamos com calma né, ou não. Ai, quer saber, não sei de mais nada. Tchaus.


sábado, 23 de agosto de 2014

Música entre parênteses, na língua da esperança

Você já pensou e ouviu uma música que não tem letra, mas é cantada numa língua inexistente e sem sentido gramatical? Você já pensou em um álbum inteiro só de músicas assim e que conseguisse transmitir algo? Um álbum sem nome, de músicas sem nome, sem lera, num conjunto de instrumento e voz que ressoam sentimentos que se despertam, pouco a pouco, dentro de nós mesmos, como algo que sempre esteve ali, mas a gente nunca soube. Sim, existe.
             O dia era 28 de outubro de 2002. Naquele dia o mundo conheceu a mais nova pérola dos islandeses do Sigur Rós. O álbum "( )". Isso mesmo, um parêntese que abre e outro que fecha, demonstrando que o trabalho simplesmente não tem nome. Mas vamos voltar um pouquinho mais. Sigur Rós é um nome em língua islandesa que significa rosa da vitória. A banda surgiu em 1994 lá nas distantes e geladas terras da Islândia e três anos depois lançou seu primeiro trabalho, "Von" (Esperança). Um clima tenso, ao mesmo tempo épico e de extrema profundidade, foi o ponto de partida para o trabalho que viria a ser lançado dois anos depois. Em 1999, "Ágætis byrjun" (Um bom começo), foi ao menos e definitivamente um bom começo para a banda, ao menos no que se refere à forma com que o quarteto da terra do gelo impressionou o mercado musical mundo afora. Não é a toa que músicas como Svefn-g-englar ainda são uma das mais lembradas, não só do Sigur Rós, como de toda uma legião do gênero post-rock.
E aí chegamos então ao século XXI. Era hora de Jónsi, Georg, Orri e Kjartan mostrarem mais um pouco do que eram capazes. E foi aí que surgiu o "( )". Você pode chamar de parênteses, álbum sem título, seja lá no nome que queira dar. A intenção da banda não era trazer um trabalho pronto, cheio de nomes e letras prontas, de músicas com um significado único que não tem a intenção de mudar. A música no "( )" é sem pretensão, sem boa nem má intenção, sem vontade de grudar, ela é simplesmente música, e cabe a quem ouve sentir o que quiser sentir de cada faixa que, do fundo da junção de melodia e sensibilidade, quase que representa os aspectos da vida que todos passamos: otimismo, tristeza, melancolia, amor, felicidade, raiva...
Mas cabe a cada um de nós interpretar e sentir, do jeito que achamos melhor. Não é a toa que o encarte do álbum é composto por doze páginas em branco. E lá, quem quiser pode registras as emoções e sentimentos extraídos da música. Criar seu próprio significado para o "vonlenska", a língua da esperança, que não existe na prática, que pode representar apenas um bando de sílabas sem sentido, mas que cantada no tom quase angelical da voz de Jónsi, junto com a melodia, o ritmo e a sensibilidade, cria um universo único.
“( )" não é um álbum para ouvir enquanto faz outra atividade, assim, para passar o tempo e simplesmente para isso. As músicas se completam, e ao mesmo tempo são únicas. De "untitled 1" a "untitled 8", são como um grande ciclo da vida, que do início até o fim, tem seus caminhos, suas dificuldades. É um álbum a ser explorado por quem ouve, e, mesmo que soe estranho no começo, para quem quer conhecer Sigur Rós, é uma incrível descoberta.